Trinta e poucos... 

A barba dele é muito azul

Muitos conhecem o conto infantil do Barba Azul, escrito por Charles Perrault e posteriormente reproduzido por Clarissa Pinkola Estés no livro “Mulheres que correm com os Lobos”. A história conta que havia um homem conhecido por Barba Azul, que cortejava três irmãs. O homem era bonito, elegante e muito rico, um excelente partido, pode-se dizer. As moças, contudo, tinham pavor de sua barba com aquele estranho tom azul e, por isso, o evitavam.  “Ele é bonito e gentil, mas você já viu a cor da barba dele? É muito azul!”, dizia a irmã mais velha. “Ele é simpático e tem um sorriso bonito, mas aquela barba, não sei… É estranha.”, concordou a irmã do meio. A irmã mais nova, por outro lado, achou que se um homem podia ser tão encantador, talvez ele não fosse tão mau quanto diziam. E quanto mais ela conversava consigo mesma, menos assustador ele lhe parecia e sua barba também parecia menos azul.

 

Suas irmãs a advertiam de que a barba dele era, sim, muito azul, mas a irmã mais nova não lhes dava ouvidos, assim, quando o Barba Azul a pediu em casamento, ela aceitou, afinal, havia refletido muito sobre a proposta e concluído que ia se casar com um homem muito distinto. Um mês após o casamento, Barba Azul precisou viajar e deixou todas as chaves do castelo com sua esposa, dizendo que ela poderia abrir qualquer porta, exceto uma pequena, no porão. Não resistindo à curiosidade, a esposa foi ver o que tinha atrás daquela portinha e, ao abri-la, se deparou com enormes pilhas de ossos humanos e poças de sangue já seco, pertencentes às esposas anteriores de seu marido. Ao chegar de viagem e descobrir que a esposa havia aberto a porta proibida, Barba Azul jurou matá-la, não concretizando seu intento apenas porque os irmãos mais velhos da esposa chegaram a tempo de salvá-la.

 

A história foi publicada em 1697, mas não poderia ser mais atual. O cara é bonito, interessante, educado, culto e te trata bem. No começo, tudo são flores, até que com o tempo ele se transforma a tal ponto que você não reconhece mais aquele príncipe encantado por quem você se apaixonou. As pequenas discussões acabam se tornando verdadeiras novelas mexicanas, o tom de voz sobe cada vez mais e ele começa a revelar um lado que você não conhecia – ou que sempre esteve ali, mas você não queria ver. E aos poucos se torna normal ele regular o comprimento das suas roupas, o tamanho do seu salto e pedir para você abotoar mais um botão da camisa. Se você achar ruim, a cena tá feita. E quando você se dá conta, você não vê mais seus amigos, as pessoas mais próximas passaram a ser os amigos dele e os seus programas mais rotineiros se tornaram os programas dele. Quando vocês discutem, ele sempre dá um jeito de fazer parecer que a culpa é sua. Ele diz que não era assim, que você que tira ele do sério e traz à tona esse lado obscuro dele. E te convence que você tem que mudar, que se você fosse mais gentil, quem sabe, ele reagiria de outro jeito. Claro, ele sempre diz que você também não é fácil, que se você fosse “mais boazinha” o relacionamento fluiria de forma mais leve.

 

Passada a discussão, você lembra dos momentos carinhosos e se pergunta se as coisas são realmente tão ruins. A barba dele não é tão azul. E você até esqueceria o episódio, se ele não se repetisse na semana seguinte. E na seguinte. E na seguinte. Quando estamos envolvidas, tendemos a não enxergar claramente fatos e circunstâncias e romantizamos atitudes que, na verdade, nos machucam. O ciúmes excessivo é confundido com cuidado: “Ele me ama tanto que tem medo de me perder”. Os rompantes de raiva e descontrole são tidos como “macheza”, afinal, homem é assim mesmo, é o excesso de testosterona. Frases como “ele não é sempre assim, só está passando por uma fase difícil”, ou “ele não é agressivo, só tem um gênio difícil, mas apesar disso, tem várias outras qualidades” se tornam cada vez mais comuns e, sem se dar conta, você se pega justificando – para si mesma e para os outros – cada vez mais as atitudes descompensadas dele. Você não lembra em que momento exatamente as coisas saíram dos trilhos, apenas se pergunta como chegou nesse ponto, como você não percebeu antes que estava em um relacionamento tóxico.

 

Logo você, tão antenada e bem informada, feminista convicta, que lê todos os dias relatos de relacionamentos abusivos, nunca percebeu que aquilo estava acontecendo com você. Nunca é com a gente, afinal, você nunca se relacionaria com um desses monstros. E é lógico que gente bonita, cheirosa e bem-educada não agride a mulher. Por agressão entenda-se qualquer tipo de violência, seja ela física, verbal, psicológica ou emocional. Agressor não é só o cara que bate em mulher. Ofensas, ameaças, pressão psicológica e intimidação podem ser formas de violência ainda mais perigosas do que a agressão física, justamente porque envolve emocionalmente a vítima, ocorrendo muitas vezes de forma velada, causando não só feridas emocionais, como também a sensação de impotência diante do parceiro. Então por mais que ele seja lindo, sedutor, interessante e envolvente, se em algum momento ele faz você se sentir inferior, incapaz, fraca ou impotente; se você tem medo dele ou se por qualquer razão que seja, o seu faro te diz que algo está errado, acredita, amiga, a barba dele é muito azul.

 

 

 

Mariana Rieping, geminiana, filha de Ogum e de Iemanjá, curiosa e inquieta por natureza. Me formei em Direito, mas nunca soube direito o que queria da vida. Não cozinho, desenho ou toco qualquer instrumento musical, mas tento colocar minhas idéias no papel, às vezes com certo custo, mas sempre com muito prazer. Sou bicho do mato e dependente química do contato com a natureza. Tenho sempre um livro na bolsa, os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

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