Trinta e poucos... 

Borogodó é o adubo que torna a vida mais florida

O cara não é exatamente bonito, pelo contrário, ele até tem aquela barriguinha de chopp, uma lasca no dente da frente ou um fio de barba espetado que insiste em ficar separado do resto. Mas basta ele abrir aquele sorriso – aquele, que forma uma covinha em cada bochecha e aquelas ruguinhas em volta dos olhos – que você se derrete toda. Ele pode até ser meio vagabundo, mulherengo, você sabe que dele não pode esperar muita coisa, mas não tem jeito, você foge mas sempre acaba voltando. Você não sabe exatamente o que é que ele tem, mas que tem, tem… É o tal do borogodó. Remelexo, charme, simpatia, cheiro, pele, química. Não dá para explicar o que é o tal do borogodó. Uns tem, outros não, não é pra qualquer um, mas ter faz toda a diferença.

Borogodó e jogo de cintura, é capacidade de se virar nos 30 no jogo da vida. É saber contornar as dificuldades, minimizar os obstáculos e tirar força sabe-se lá de onde para vencê-los todo dia. Borogodó é o ingrediente secreto da mãe solteira que reveza entre os afazeres domésticos, os dois empregos e o curso de espanhol e ainda tem tempo de brincar no chão da sala com os filhos quando chega em casa e fazer aula de dança de salão nas quintas-feiras.

Borogodó é o tempero da comida da vó, que nenhum restaurante chique consegue imitar e por mais que você tente e procure nas melhores lojas de condimentos, nunca vai conseguir fazer igual. Pode ser arroz com feijão e batata frita, o prato mais simples que for, igual comida de vó não tem. Porque comida de vó tem borogodó. Pensando bem, casa de vó tem borogodó. Cheiro de flor ou de café com bolo, o barulho do tic-tac do relógio-cuco iluminado por um feixe de luz solar que entra pela janela com cortinas floridas e deixa a sala quentinha, a mesa de jantar com toalha xadrez, a aura luminosa que paira sobre a casa e faz dela o melhor lugar no mundo.

Casa de mãe também tem borogodó, principalmente porque casa de mãe normalmente é sinônimo de colo, e colo de mãe definitivamente tem borogodó. Naquele colo todos os problemas se amenizam, a tristeza se dissolve e, depois da casa da vó, talvez esse seja o segundo melhor lugar no mundo. As mães são mesmo cheias de borogodó. Mas eu acho que os filhos também. Quando eu era pequena, minha mãe cafungava no meu pescoço e dizia que o melhor cheiro do mundo é cheiro de filho. Eu ainda não sei do que ela estava falando, quem sabe quando eu tiver os meus, eu entenda. Mas acho que cheiro de filho também tem borogodó. Borogodó é o adubo que torna a vida mais florida, é o motivo para ir ou para ficar, o ‘algo a mais’ inexplicável que faz o coração bater mais forte e torna tudo mais interessante.

 

mari

Mariana Rieping, geminiana, filha de Ogum e de Iemanjá, curiosa e inquieta por natureza. Me formei em Direito, mas nunca soube direito o que queria da vida. Não cozinho, desenho ou toco qualquer instrumento musical, mas tento colocar minhas idéias no papel, às vezes com certo custo, mas sempre com muito prazer. Sou bicho do mato e dependente química do contato com a natureza. Tenho sempre um livro na bolsa, os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

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