Trinta e poucos... 

Borogodó

O brasileiro é um povo engraçado. Inventamos expressões únicas, que só a gente entende, e que são impossíveis de serem traduzidas para outras línguas. Já tentou traduzir para o inglês as expressões  “dar o migué”, “mala sem alça”, “é nois na fita”, “soltar a franga” e tantas outras? Agora, existem expressões regionais, que se você não tiver nascido no Nordeste, jamais vai entender. Um exemplo disso é a palavra “borogodó”.

Borogodó, segundo nosso dicionário, significa um “atrativo pessoal irresistível”. Tipo assim, “Raimunda é arretada. Ela é um pitelzinho, cheia de borogodó”. Eu, no meu pobre entendimento sulista, acho que quer dizer que a pessoa tem um “tchan” a mais, um brilho, algo que nos faz destacar dos demais. Será?

Eis que fico a pensar qual seria o meu borogodó. O físico já esteve melhor, afinal, sou mãe de duas crianças pequenas e, ao invés de suar na academia, ando meio sedentária. Além disso, como as minhas refeições e o que sobra dos pequenos. Praticamente um ser devorador de sobras alimentares. As olheiras também denunciam minhas noites insones, pois fico preocupada se as crianças estão bem cobertas, se estão com fome (fome? Elas estão dormindo!), unhas por fazer e o cabelo então…affmaria.

Mas ainda assim,  procuro entender o que me torna especial, única, que me destaca da multidão. Como já disse, os atributos físicos estão meio em baixa, e o auge da minha produção, ultimamente, é feita no trânsito a caminho do trabalho, entre um sinaleiro e outro, onde passo rapidamente uma base meio diferente do tom da minha pele, jogo um pó de arroz na tentativa de cobrir as imperfeições, passo o batom com o motorista de trás já businando, e quando vou ver….tcharãm….estou a cara do Bozo!

Ah, temos que destacar também o vestuário “sexy” utilizado por mamães descuidadas, como eu, por exemplo. Onde estão aqueles trapinhos de renda, e tantos outros acessórios, que um dia nos cabiam e eram utilizados como armas de sedução? Sim, deram lugar àquelas calçolas bege, estilo gestante, para horror dos maridos.

Então, considerando o fato de que estou anos-luz de ser uma popozuda ou mulher-fruta, passei a refletir sobre minhas atitudes e pessoas ao meu redor, e percebi que o meu borogodó vem de dentro.

Tem mais a ver com carisma, empatia, capacidade de ouvir uma pessoa estranha e abraça-la, apenas porque ela precisa. Com os filhos, aprendi a ser paciente, a amar incondicionalmente, a me doar e ser a melhor pessoa do mundo na vida deles. Com meu marido, aprendi a respeitar as diferenças, e que os melhores momentos são aqueles mais banais, como assistir televisão debaixo das cobertas comendo pipoca. Sim, damos risadas juntos, da nossa própria desgraça. Tem coisa melhor?

Cheguei à conclusão de que meu borogodó é um privilégio para poucos, muito poucos.

vivian

Vivian Murray, filha de professora de Letras e entusiasta em línguas estrangeiras, cresci lendo histórias clássicas infantis e muitos livros de charges, como Garfield e sua turma. Sou uma eterna criança, apaixonada por ilustrações, cartunismo e toda forma de arte. Tímida por natureza, vivo observando o comportamento humano, ouço muito mais do que falo. Sempre gostei de escrever, e sabe-se lá por quê, algumas pessoas me acham engraçada, talvez por uma tendência inconsciente de ironizar fatos corriqueiros. Sou mulher maravilha disfarçada de mãe, esposa, dona de casa e profissional. Fui advogada e, atualmente, sou servidora pública, trabalhando como Escrivã da Polícia Civil do Paraná.

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