Trinta e poucos... 

Curto ou longo?

Costumo brincar que, se você é adolescente hoje em dia e não tem cabelo comprido, deve ter vontade de cortar os pulsos. Parece praticamente um mantra religioso. A coisa de se integrar ao grupo faz com que todas as meninas tenham longas – e lisas (esta parte é fundamental) – madeixas. Não posso negar que os cabelos são lindos, lógico. Mas não rola um curtinho básico ou um corte chanel?

 

Aliás, uma amiga minha me contou certa vez que, os amigos escandinavos do irmão dela que visitavam o Brasil, ficaram embasbacados com as mulheres daqui. Nenhuma novidade, a não ser que eles não tinham comentado sobre os corpos esculturais das cariocas, mas sim, seus cabelos. Ficaram impressionados com a beleza capilar dos trópicos.

 

Enfim, vamos ao que interessa. Nos meus vinte e poucos anos (assim como Fábio Júnior já dizia naquela música, antes do botox), a ditadura do liso/comprido também reinava. Mas eu adorava meus cachos. Quando saía com minhas amigas, eu era sempre a estranha no ninho. Algumas tinham o liso natural, mas aquelas que não, passavam horas fazendo escova. Naquele tempo, eu também tinha uma cabeleira enorme.

 

Assumi meus cachos lá pelos 15 anos. Na infância minha mãe tinha insistido nos rabos- de-cavalo e maria-chiquinhas. Lá pelos 12 ou 13 – a fase do patinho feio – tentei até ter uma franjinha. Ficava um tempão antes de sair para a escola alisando a dita cuja com o secador. O problema é que na época eu morava no interior do Paraná e nos meses de inverno (muitos, por sinal!), bastava eu virar a quadra de casa que a franja encolhia, enrolava e virava um ser estranho no meio da minha testa.   

 

Quando estava na faculdade, minha “juba” então era enorme. Chamo de juba carinhosamente, porque eu simplesmente amava aquele volume todo. Meio estilo Gal Costa. Mas, algumas das coisas mais difíceis de domar, além da minha língua afiada, eram meus cachos. Lúcia, minha amiga e irmã de coração, ficava debochando na sala de aula – ela sentava atrás de mim – que dava para perder qualquer coisa no meio do meu cabelo. Se por acaso a caneta entrasse ali, nunca mais a encontraríamos.

 

Uma década mais tarde, um filho nascido e um vai e vem de hormônios correndo pelo corpo, meu cabelo mudou. O volume mingou e os cachos foram fumar um cigarro na esquina. Decidi marcar uma consulta com uma dermatologista, que me indicasse alguma fórmula para eu conseguir me reconhecer no espelho.

 

Ela olhou daqui, pegou ali e me deu o diagnóstico: “Em cima tá cheio, mas embaixo é bem ralinho. O melhor é deixar o cabelo mais curto”. Assim, na lata, sem sedativo nenhum. Cortar o cabelo, é isso mesmo? Perder minha força de mulher poderosa, que faz genêro ao enroscar os dedos no cabelo? Ela só poderia estar brincando.

Resolvi ignorá-la por completo. Ou melhor, por partes. Tomei a tal da biotina e passei algumas loções no couro cabeludo.

 

Algum tempo depois, fui morar no exterior. Mais exatamente na Suíça. Poucos lugares são tão desligados da imposição da moda quanto lá. Curto, nos ombros, compridos. Cada um usa o cabelo que lhe cai melhor. E que mais lhe convem. Bom, preços de salão de beleza por lá são extorsivos, então talvez isso faça uma grande diferença.

 

Mas sei que um certo dia, tomei coragem e decidi que era hora de uma mudança radical. Peguei minha bicicleta e fui até a cabeleireira baiana, que morava no meu bairro. Disse a ela que queria um corte chanel, acima dos ombros. Ela me perguntou “Tem certeza?”. Sim, eu tinha absoluta certeza.

 

Nunca recebi tantos elogios. Todo mundo dizia que eu parecia mais jovem. Era uma sensação estranha não sentir o cabelo nas costas, mas ao mesmo tempo, libertadora. Ouvi de uma amiga minha, que mora no Brasil, que “se ela vivesse na Europa, iria cortar o dela também”.

 

De volta a São Paulo, no ano passado, decidi deixar meus fios crescerem novamente. Estava com saudades, confesso. Agora estão compridos, mas nunca mais foram os mesmos. Daqueles volumosos, dos meus vinte e poucos. Todavia, com meus trinta e muitos, não tenho mais tempo de ter crise existencial por causa do meu cabelo.

Peraí filho, já estou indo …

 

Susana Camargo

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Nunca tive a mínima dúvida sobre o que queria fazer na vida: escrever. Escrevi para rádio, televisão, revista e sites. Sou daquelas que adora ficar ouvindo conversa na mesa ao lado do restaurante ou vendo despedidas em aeroporto. História é para ser contada. E recontada. Às vezes me acho meio louca quando penso num título enquanto estou dirigindo ou então naquela abertura de texto durante a chuveirada. Ao longo da vida descobri minha segunda paixão: viajar! Acho que sou uma típica geminiana: inconstante, curiosa e inquieta. Atualmente me sinto mais como uma malabarista. Mãe, dona de casa, esposa, jornalista freelance e mulher.

 

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