Trinta e poucos... 

Dedos rápidos

Meu sobrenome era impulsiva. Suzana Impulsiva. Quando percebia, já tinha falado. Tinha feito. Tinha ligado. Tinha beijado. Tinha casado. Parece que por algum defeito de fabricação, o chip com o “filtro” veio faltando. O comando da emoção não passava pela razão. Falava diretamente com o cérebro. Ou pior, no caso de uma jornalista, com os dedos.

 

Lembro como se fosse hoje, no meu começo de carreira, quando trabalhava na televisão. Tinham acabado de instalar o novo canal de comunicação interna da redação, a intranet (ok, ok, revelei minha idade jurássica agora, né?!). Como ainda era um primórdio do Whatsapp, não havia uma lista de contatos enorme em que você clicava um nome e digitava rapidamente a mensagem, seja lá para quem fosse.

 

O que acontecia é que tinha um quadradinho em cima em que você colocava o nome da pessoa e enviava a mensagem. Caso precisasse falar com outro editor ou repórter, precisava trocar o nome. Já imaginou a bobagem?

 

Eu estava lá com meus 20 e poucos aninhos. Tinha acabado de chegar do Rio de Janeiro para Curitiba. E a chefe de redação nunca realmente tinha gostado dos meus lindos olhos verdes. Ou das minhas roupas cariocas mais descoladas. E muito menos da minha língua sem muitas travas. Pouquíssimas, aliás.

 

Então, naquele dia fatídico, estava editando uma matéria e passei uma mensagem para o Arnoldo, um poço de simpatia, que estava fechando o jornal. Aí, de repente pipoca outra mensagem da tal moça, que não me “curtia” muito (para usar um termo de Facebook dos dias de hoje). Respondi rapidamente. Na sequência resolvi desabafar com o Arnoldo que ela não parava de pegar no meu pé. Pronto, que alívio é compartilhar emoções. Dei ENTER. Nãoooooooo!!!!!

 

O desabafo, para ser elegante, foi diretamente para ela. Um, dois, três minutos depois e nada. Silêncio total. Ela nunca fez nenhum comentário sobre o episódio. Mas lógico, só consegui adicionar mais alguns pontinhos naquela lista imensa de razões para ela me considerar uma persona non grata.

 

 

Com o passar do tempo e a chegada de alguns (só alguns) fios de cabelo branco, a impulsividade foi se enfraquecendo. Ela foi dividindo espaço com a cautela. Ou talvez o que todo mundo que está envelhecendo chame de maturidade.

 

Isso não significa que eu não continue borbulhando de raiva em certas ocasiões. Principalmente quando entrego um texto que venho trabalhando por dias e aí recebo aquele e-mail do editor, que inevitavelmente começa assim “Querida Suzana … O texto estava ótimo, MAS …”. Quando aparece o mas, já sei que ele quer mudar tudo. Buscar mais fontes, trocar parágrafos de lugar, substituir aquele título genial que eu demorei uma semana inteira para bolar.

 

A diferença é que agora, com meus trinta e muitos, consigo controlar meus dedos rápidos. Leio, sinto aquele vulcão dentro de mim e rapidamente levanto e vou fazer outra coisa. Depois de um tempo, dou uma nova lida no e-mail. Talvez minha reação esteja sendo exagerada. Pelas próximas horas, fico ruminando a resposta na minha cabeça. E se não puder responder a mensagem só no dia seguinte, por ela exigir pronto retorno, dou um tempo. Alguns minutos, algumas horas.

 

Aprendi que aquilo que me tira o sono hoje, pode parecer um problema um pouco menor amanhã. Menor ainda daqui a uma semana. Ainda causar um certo mal estar no mês seguinte. Mas com certeza, será algo que me fará dar muitas risadas daqui a alguns anos.

 

Suzana Camargo

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Nunca tive a mínima dúvida sobre o que queria fazer na vida: escrever. Escrevi para rádio, televisão, revista e sites. Sou daquelas que adora ficar ouvindo conversa na mesa ao lado do restaurante ou vendo despedidas em aeroporto. História é para ser contada. E recontada. Às vezes me acho meio louca quando penso num título enquanto estou dirigindo ou então naquela abertura de texto durante a chuveirada. Ao longo da vida descobri minha segunda paixão: viajar! Acho que sou uma típica geminiana: inconstante, curiosa e inquieta. Atualmente me sinto mais como uma malabarista. Mãe, dona de casa, esposa, jornalista freelance e mulher.

 

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