Trinta e poucos... 

A gaveta dos cremes

 

Na minha adolescência, o legal era torrar no sol. Não existia essa coisa de “antes das 10h e depois das 16h”. Era ao meio-dia mesmo, horas e horas se bronzeando para pegar aquela cor invejável. Para a minha geração, a palavra protetor-solar não tinha entrado ainda no dicionário. Meus bronzeadores favoritos eram óleo Johnson para bebê, que te deixava mais brilhante que uma sambista na Sapucaí, porém garantia um bronzeado estilo “estive um mês no Nordeste”, ou então, o inesquecível Rayito de Sol. Acabei de denunciar minha idade, né? O Rayto de Sol era um creme que vinha numa bisnaga (acabei de dar um google e a propaganda diz “Fórmula rica em cera de abelha”… jurava que era urucum!). Feito na Argentina – por favor, sem comentários xenófobos -, virou uma febre nos anos 80.

O produto acima citado garantia uma cor linda, talvez porque ele simplesmente grudava no corpo. Era algo impressionante! O problema era tirá-lo depois do banho. As toalhas ficavam impregnadas de Rayto de Sol. Bom, olhando pelo lado Polyana, elas deviam ficar felizes também de ganhar um bronzeado, não? Fico imaginando o estrago que aquilo não fazia na máquina de lavar …

Anos mais tarde, lá pelos meus 20 e poucos, em um daqueles muitos verões estatelada na areia da praia, percebi que o “descascado” da pele do rosto estavam demorando um pouco mais a sair. A pele descamando por causa do abuso do sol também tinha lá um certo charme. Convenhamos, tudo tem charme quando se tem 20 aninhos. Mas enfim, o descascado não era descascado. Era uma mancha na pele. Daquele tipo de mancha hormonal, que aparece em algumas mulheres quando engravidam. Como assim??? Eu não estava grávida! Mas tomava pílula anticoncepcional, que também pode causar o mesmo problema, aprendi com o médico depois.

A partir daí, caiu a ficha que não dava para simplesmente ficar que nem porco no rolete no sol: barriga para cima, barriga para baixo, barriga para cima, barriga para baixo. E então decidi fazer minha primeira visita ao consultório da dermatologista. Como a maioria das pessoas que conheço, saí de lá com uma lista maior do que a de supermercado. Tudo feito em farmácia de manipulação, com grande parte das fórmulas contendo ingredientes que até então, eu nem sabia da existência. Um deles, nunca mais esqueci: óleo de semente de uva! Chique, né? O preço então, nem fale. A uva devia vir direto da Toscana para o preparo no Brasil.

Mas foi só uma década depois é que uma olhada no espelho mudaria completamente a quantidade de cremes presentes no armário do meu banheiro. Você se encara todo dia no espelho e pouca coisa muda. Lógico, tem aquele dia que o cabelo está horrível, um olho parece maior que o outro ou que você se questiona porque nunca teve coragem de fazer aquela plástica no nariz. Enfim, elocubrações do dia a dia. Todavia, tem aquela cena igual do comercial da Valisére: “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”. Sem nenhum glamour, muito menos poesia, a primeira ruga você nunca esquece também.

Ela simplesmente está lá. Uma linha pequena ao lado do seu olho. Depois vem outra entre os olhos e mais tarde, umas do lado da boca. E aí, você percebe que a “galera das rugas” está achando divertido transformar seu rosto num mapa de ruas.

Fazer o quê? Algumas coisas na vida são simplesmente inexoráveis. Assim como não há fuga para a morte, também não o há para o envelhecimento. É enfrentar de cabeça erguida, tinta no cabelo (para quem gosta) e uma gaveta cheia de cremes. O problema é achar o pote ou tubo certo na hora de dormir porque tem para tudo: hidratante para o pé, para as mãos, antirrugas para o olho, creme noturno para o rosto e batom labial (sim, os lábios também enrugam, não se engane!).

Além do óleo de semente de uva, do retinol, vitamina C e toda lista interminável de descobertas dermatológicas milagrosas que a indústria cosmética nos empurra – e nada como um comercial bem feito para eu acreditar (pelo menos é isso que meu marido sempre fala) -, nada funciona melhor para manter a juventude do que o bom humor e uma loucura de vez em quando. Uma risada sem controle e um jato de adrenalina valem muito mais do que qualquer creme, mesmo que a Gisele Bundchen afirme de pé juntos que ela usa todo dia!

 

Suzana Camargo

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Nunca tive a mínima dúvida sobre o que queria fazer na vida: escrever. Escrevi para rádio, televisão, revista e sites. Sou daquelas que adora ficar ouvindo conversa na mesa ao lado do restaurante ou vendo despedidas em aeroporto. História é para ser contada. E recontada. Às vezes me acho meio louca quando penso num título enquanto estou dirigindo ou então naquela abertura de texto durante a chuveirada. Ao longo da vida descobri minha segunda paixão: viajar! Acho que sou uma típica geminiana: inconstante, curiosa e inquieta. Atualmente me sinto mais como uma malabarista. Mãe, dona de casa, esposa, jornalista freelance e mulher.

 

 

 

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