Trinta e poucos... 

Livres de rótulos. Porque julgar aprisiona.

Confesso que fiquei pensando se o mote ALFORRIA renderia textos polêmicos, teria repercussão. Pensei em temas políticos para esquentar a cena, mas fui vetada pela nossa editora, afinal, alertou, hoje todo mundo adora uma boa briga no teclado. Enfim, decidi pegar leve, ser mais teen no tom: lembrei daquela vez que eu e a Isa fugimos pelo telhado da casa de praia dela a noite, da vez que escondemos os meninos que tínhamos acabado de conhecer na casa do avô depois de convencer o filho do caseiro a nos ceder a chave, do primeiro grande porre na praia, de todas as vezes que a gente se jogou na pista como se não houvesse amanhã, das oito horas de reggae, rock e shot de tequila na época dos bares mexicanos, daquela vez que você flertou com a pessoa errada, enfim, destas coisas da adolescência, que a gente lembra como grandes momentos de ALFORRIA. São sempre leves, porque das vezes que a gente pega pesado a lembrança não é bacana, e não soa liberdade e sim burrice, ou, aprendizado para os mais otimistas. Também pensei nas viagens bacanas, impensadas e que sempre resultam em descobertas de lugares mara, que ninguém conhece e que a gente prefere que continuem assim.

A gente cresce e os temas ficam chatos. A ALFORRIA passa a ser cada vez mais um estado de espírito, porque ninguém de fato tem liberdade de ser mais nada sem ter que explicar o porque e rebater críticas. Sendo assim, vou te falar que pra se viver de fato a ALFORRIA o primeiro grande passo é assumir para você o que quer viver, sem se preocupar com os outros. E para isso o trabalho é árduo, dicotomicamente aprisionador, já que precisa conhecer o que te aflige e algumas (ou muitas) sessões de análises podem não resolver o seu problema. Atravessar a porta é que faz a diferença.

Uma destas lutas é comum às mulheres: maternidade X vida profissional. Vamos lá, primeiro elas são divididas em times: as mulheres que coçam no sofá o dia inteiro ou ficam tomando champanhe com as amigas; e, aquelas do segundo grupo que são desnaturadas e não querem assumir os filhos mal educados que certamente terão no futuro. Duro, né, mas os rótulos existem para isso. Então sou do primeiro grupo, daquelas que estão ficando craque nos rótulos, de champanhe que fique claro. Meu filho nasceu e eu trabalhava em uma grande empresa de comunicação, mas quando aquela bolinha gorda e de olhos azuis completou seis meses, meu nível de ocitocina não permitiu o desapego e deixá-lo no Rio de Janeiro solteiro e só com babá não me pareceu a decisão mais acertada. Pedi as contas e parti para a maternidade, logo eu que tinha começado a trabalhar aos 15 e pregava a emancipação do lar.

Nas voltas que a vida dá, depois disso mudei para Curitiba, a minha segunda filha nasceu, fui para o Nordeste e agora estou fincando o pé em São Paulo. E assim fui levada pela maré, a conhecer muitas mulheres ex-patriadas que abandonaram as carreiras e os negócios que são donas para deixar os filhos perto dos pais, que decidiram abrir mão conscientes de suas conquistas, para começar novas, com muito orgulho e muito amor. Mas a guerra interna não é fácil, a difícil batalha travada entre ser uma profissional super top descolada e uma mãe descabelada, mais um rótulo (para ambas), pra deixar bem claro, é punk. Escolhi ficar perto dos meus pequenos porque acredito que esta era minha missão mais importante neste momento, e, teve uma pergunta feita por uma amiga que me trouxe a ALFORRIA destes rótulos que eu mesma me colocava. Você seria feliz trabalhando o tempo todo em uma empresa sabendo que eles estão com outra pessoa? A resposta é NÃO. E assim me libertei, chutei a porta, abri uma champanhe e brindei: yes, eu tenho o direito de curtir meus filhos e ninguém tem o direito de se meter nisso! Gosto de olhar de longe os dois brincando e peço para que estes momentos simples fiquem guardados na minha memória.

Quero fechar os olhos e lembrar que tive a coragem de abrir mão de antigas concepções e abraçar meus filhos, pelo menos por este momento. De verdade, e, porque escolhi. Saúdo a todas as mulheres que fazem suas escolhas libertas, se convencem que esta briga interna é aprisionadora, que estão felizes com o seu papel de mãe, seja a que abriu mão da carreira ou a que mergulha de cabeça no mundo corporativo. Livres de rótulos. Porque julgar aprisiona.

 

Caroline Lorusso.

Londres 2014

Comente