Trinta e poucos... 

Maremoto

As ondas batiam nas pedras de forma quase preguiçosa. Sentada abraçando os joelhos, olhos fechados, eu sentia a brisa do mar no meu rosto. O mar estava atipicamente calmo – pateticamente calmo, na verdade, especialmente quando se fala em algo que pode te engolir num piscar de olhos. Por fora e ao redor, sol e tranquilidade. Por dentro, chuva torrencial e águas revoltas. O oceano dentro de mim se sacudia e, baixinho, eu pedia: Odociaba, minha mãe Iemanjá, me leva de volta à costa, me deixa pisar na areia. Há tanto em mim que eu não entendo, minha mãe, eu só queria que a senhora me pegasse no colo e acalmasse a cadência nervosa desse maremoto interno.

Você sabe como acontece um maremoto, mãezinha? Meus conhecimentos de geografia são parcos, mas é algo como placas que se chocam violentamente e fazem com que as ondas se tornem gigantescas e avancem contra o que estiver no caminho delas. É assim que eu me sinto volta e meia. Meus pedaços se apertam, desesperados por uma união qualquer, acabam se chocando e então travam um embate dos mais agressivos dentro do meu peito. O resultado você já viu, fecho a boca e engulo tudo. Catástrofe encerrada.

Só que às vezes meus próprios tsunamis não cabem mais dentro de mim e extravasam pelos meus olhos. E as mesmas lágrimas de água salgada que levam – e lavam – trazem com a correnteza novas águas que aos poucos se transformam em outras tsunamis. Há sempre um maremoto acontecendo ou se formando nesse meu oceano particular.

Mantive as pálpebras fechadas enquanto balançava o corpo para frente e para trás, traduzindo nos gestos o furor do meu espírito inquieto, desesperada para botar para fora de algum jeito aquilo que eu jamais conseguia exprimir em palavras. Eu engasgava, trocava as sílabas e os significados, terminava resmungando e nunca, no final das contas, conseguia me fazer entender.

Mansidão é minha meta, mas sou toda desatino – e quando transpareço suavidade, estou esperando o momento em que algo vai explodir no meu peito e me fazer animalesca na minha ânsia de afundar navios inteiros.

Interrompi minha reflexão ao sentir olhos pousando sobre mim. Abri as pálpebras devagar e uma brisa gelada me acariciou o rosto. Cruzei os braços apertando-me contra mim mesma na tentativa de me esquentar. Ou me absorver, me fundir, sei lá. Deitei o rosto no meu próprio ombro e senti, por um momento, braços ao meu redor. Braços que não perguntavam, apenas entendiam. E me traziam de volta à margem, devagar. Aceitei o afago da brisa gelada e aos poucos voltei para a terra, fugindo da escuridão onde eu me encontrava, porque eu sabia que se viesse a afundar, morreria sozinha lá no fundo.

 

Mariana Rieping, geminiana, filha de Ogum e de Iemanjá, curiosa e inquieta por natureza. Me formei em Direito, mas nunca soube direito o que queria da vida. Não cozinho, desenho ou toco qualquer instrumento musical, mas tento colocar minhas idéias no papel, às vezes com certo custo, mas sempre com muito prazer. Sou bicho do mato e dependente química do contato com a natureza. Tenho sempre um livro na bolsa, os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

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