Trinta e poucos... 

Na balada

Se tem uma coisa que me dá saudades da adolescência é de sair à noite com as amigas.

Tinha todo o ritual de preparação. Passávamos a semana inteira combinando com que roupa iríamos, e no final, estávamos todas iguais, de preto, da cabeça aos pés.

Todas maquiadas, escovadas e perfumadas, apertávamos no carro da mãe ou pai de alguma amiga, os quais, numa espécie de rodízio, eram compelidos a nos levar – e buscar – na baladinha.

Chegando lá, o que nos aguardava? Sim, a famigerada fila de entrada. Mesmo com o frio curitibano, que beirava os 0ºC, a etiqueta adolescente vedava o uso de qualquer tipo de casaco. Tínhamos que tilitar de frio, de blusinha e meia calça, com o corpo meio desengonçado à mostra, torcendo para que quando chegasse a nossa vez o segurança não pedisse a identidade.

 

Ah, mas era lá dentro que tudo acontecia. A caçada começava cedo. Meninos bebendo e meninas se “divertindo” nas pistas de dança, mirando os alvos. O bar começava a encher, e junto com ele, as filas para circular lá dentro. Fazíamos uma espécie de “trem da alegria”, passando por todos os corredores, pelos quais encarávamos os gatinhos, e, em frações de segundos decidíamos se a investida valia a pena ou não.

Gente, eu juro que me sentia um pedaço de carne no espeto corrido. Podia até ouvir um garçom gritando: – “Olha a alcatra, olha a maminha! Coraçãozinho! Costela, vai um pedaço aí, chefia?!”

 

Duro mesmo era sair com amigas mais bonitas que a gente, aquelas que eram bem mais altas, bem mais magras e loiras, de boca carnuda e tudo mais – o verdadeiro esteriótipo da Jessica Rabbit. Eu, particularmente, me sentia invisível perto desse tipo de amiga, por mais que caprichasse na produção. Eu podia até dançar o Can Can para chamar a atenção dos meninos, mas eles só tinham olhos para as “Jessicas”.

E se para nós, garotas, já era difícil por em prática as táticas na guerrilha do amor, imagine só para os meninos, especialmente aqueles premiados pela revolução hormonal, com o rosto coberto de espinhas e de sorriso metálico?

 

Esses dias assisti a um capitulo do programa The Big Bang Theory, onde o jovem cientista espacial Howard Wolowitz (Simon Helberg) ensina o astrofísico Rajesh Koothrappali (Kunal Nayyar) a arte da sedução na balada. Quase morri de rir com as táticas, as quais, aliás, fazem bastante sentido. Segundo o cientista, quando se chega a um bar onde há forte concorrência masculina (leia-se: muitos homens bonitos), deve-se esperar que os galãs ataquem primeiro. Eles selecionam as presas mais fáceis, as mais bonitas, as mais atraentes, enfim, as mais tudo. Somente após a primeira leva de machos encontrar os seus pares é que os nerds, os geeks e os desavantajados esteticamente entram em ação. Embora politicamente incorreto, Howard ensina Raj que eles devem mirar nas mulheres (muito) bêbadas, nas gordinhas, nas aleijadas e nas zaroias. É vitória certa. Afinal, o que seria dos feios se todos fossem lindos?

Com beijo na boca ou não, a balada terminava e voltávamos todas para a casa de alguma amiga, na carona de algum pai bondoso, que invariavelmente vinha nos buscar de pijama, roupão e pantufas.

Lembro bem do zumbido nos ouvidos no final da noite, aquele do tipo ensurdecedor, do cabelo cheirando a cigarro, da voz rouca, de tanto gritar no meio daquela barulheira louca, de acordar com a maquiagem borrada no dia seguinte, no melhor estilo The Cure, e dos relatos particulares de cada amiga, tudo em meio às gargalhadas e comendo muito biscoito de chocolate, para repor as energias.

 

Acho que na maioria das vezes, as noites eram um total fiasco no quesito “garotos”. Mas, pensando melhor, não é a quantidade de garotos que beijamos ou deixamos de beijar nas baladas que nos fez mais felizes. O que fica, na verdade, é a lembrança das verdadeiras amizades, das fiéis amigas guerreiras que participaram disso tudo, testemunhas de anos incríveis e que não voltam jamais.

 

Vivian Rocha Loures

[Not a valid template]

Advogada, 35 anos

 

Comente