Trinta e poucos... 

O último desejo

“Ela sentou-se da forma mais confortável que encontrara.O vento, que soprava forte, não a incomodou.Olhou para o horizonte, viu todas aquelas casas, carros, pessoas agindo como se fossem donas do tempo. Mal sabem elas que o tempo é só do tempo. E ali ciente disso, como quem espera o sinal da saída da escola, balançava os pés enquanto desdobrava aquela folha de papel.

Também já havia tentado ser a dona de seu tempo. E por isso, todos os anos – desde a adolescência – tinha por hábito natalino escrever uma lista de realizações para o ano seguinte. Agora, passava os olhos naquela lista longa, com todos os desejos sonhados até os 30 anos. Sim era longa, porque os desejos não realizados iam automaticamente para a lista do próximo ano.
Os olhos marejaram ao perceber que, de todos eles, apenas uns poucos haviam sido riscados. O que sentia a cada desejo lido – e não concretizado – era como mais uma janela da alma que se fechava e dificilmente seria novamente aberta.

De repente tudo escureceu, aquietou-se. Sem muito pensar, num impulso breve ela começou a voar. Em meio a queda fechou os olhos e abriu a mão soltando a longa lista no ar, como quem solta passarinho da gaiola. Sorriu timidamente. Estava enfim liberta.”

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Rafaelle Mendes
“Eu sou a Rafa. Mãe. Fotógrafa. Jornalista. Permacultora. Nem sempre nessa ordem (não que exista alguma, rs rs)”.

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