Trinta e poucos... 

O(s) príncipe(s) encantados(s)

Ele era meu vizinho. Morava no andar de cima ao meu. Com o tempo, eu sabia exatamente todos os horários dele. A hora que chegava da escola, ia para o inglês e passeava com o cachorro. Nestes momentos, eu ficava na janela, olhando para baixo e suspirando. Quando tomava coragem, descia e – por pura coincidência – esbarrava com ele. Rolava um “oi”, meio sem graça. Mas também havia os dias em que ele aparecia de mãos dadas com a namorada. Era motivo para eu ficar arrasada, derramar um balde de lágrimas, ouvindo algum hit romântico da época ou ao som do Legião Urbana, trilha sonora minha e dos meus amigos naqueles idos de Brasília. Eu tinha 13 anos. Meu vizinho devia ter uns 16, 17. O nome dele era Humberto (horrível, né? Como não percebi isso naquele tempo?!). Ele foi minha paixão platônica da adolescência. Na real, mal sabia da minha existência.

 

Ao longo da vida, vieram outras paixões – muitas outras, tenho que confessar. A história da princesa solitária que espera o princípe encantado chegar no cavalo branco apresenta graves erros de roteiro. O principal deles é que não há “o” príncipe, mas “os” príncipes. E convenhamos, ninguém acredita mesmo que a própria felicidade está nas mãos de outra pessoa. Primeiro a gente precisa ser feliz, se olhar no espelho e gostar do que vê (mesmo com aquele nariz que mereceria uma plástica, as ruguinhas começando a aparecer e a franja que insiste em ficar para o lado errado).

 

Mas se no meio do caminho aparecer aquela pessoa que faz seu coração bater mais forte, lógico que que não há nada mais maravilhoso do que dormir de conchinha (nos dez primeiros minutos, depois começa a esquentar demais) e acordar todo dia com alguém descabelado do lado da gente.

 

Entretanto, mulher – ou serei só eu? – sempre encasqueta de gostar do cara mais difícil. Ou disputado. Deve ser daí que surgiu aquele mantra do mundo corporativo quando demite alguém fulano vai deixar a empresa porque está em busca de novos desafios profisisonais …”

 

No meu caso, em busca de novos desafios amorosos, esbarrei no Beau. Não, não estou de brincadeira. O nome dele era Beau mesmo. Belo, em francês. Mas ele era americano. Eu estava morando nos Estados Unidos e tinha 17 anos. Quando a mãe escolheu o nome dele, deve ter visto o futuro numa bola de cristal. Ele era lindo. Devia ter uns 21 anos (muiiiito mais velho que eu na época), alto, com lábios carnudos (tipo Angelina Jolie), olhos claros e um estilo “conquistador-não-estou-nem-aí” de abalar quarteirões. Ah, e fumava maconha (mas não tragava, como diria Bill Clinton). Assim como eu, metade do staff feminino do restaurante onde trabalhávamos, arrastava a asa e mais o corpo inteiro por ele.

 

Foram meses de papo mole, olhadas sedutoras, mãos furtivas (dele) na (minha) cintura e … nada mais! O máximo que consegui tirar daquela paixonite foi um beijo – um único e mísero beijo – numa sala escura, durante uma festa muito louca na minha casa, quando meus pais estavam viajando.

 

Fast-forward. Uns dois ou três anos depois, eu estava na faculdade no Rio de Janeiro (não, minha família não era cigana, mas sei que parece). Uma bela noite fui parar num bar na Tijuca. Era despedida de uma colega, que fazia estágio comigo, e estava indo morar fora do país. No meio da muvuca, meu olhar cruza com o dele. Mais um princípe na minha trajetória. Alto, moreno, com um brinco na orelha e aquele sotaque carioca que faz qualquer uma se derreter depois do primeiro “porrrrque”. Resistir? Era impossível. Dali ele me levou para ver a vista no Mirante do Leblon. Pronto, apaixonei.

 

Foi um mês de perna bamba. Como assim? Eu namorando um cara que trabalhava na Globo, falava “então, meu irrrrmão”, era lindo e passava os finais de semana na praia comigo? Bom demais para ser verdade. Ah, e também fumava unzinho, mas sem tragar. E eu, mais careta impossível. Mas como tudo que é bom dura pouco, o namoro relâmpago terminou com um belo fora (dele em mim, lógico!) porque ele decidiu voltar para a ex. Foram meses para me recuperar e cair na real. No Natal, recebi uma carta dele com aquela frase tradicional “não era nosso momento”. Pode existir algo pior?

 

Teve então o príncipe que decidiu me levar para o altar. E eu aceitei. Minha mãe me alertou sutilmente “Filha, por que vocês não moram juntos primeiro, só para testar?”. Devia ter percebido que havia alguma pegadinha, não? Mas lógico que não. Eu tinha certeza que ele era o homem da minha vida. Queria o pacote completo: véu, grinalda e bolo. Mas o príncipe virou sapo e um ano depois veio com outra frase inacreditável “Namoraria você minha vida inteira, mas não fui feito para ficar casado”. Sim, sim. Verdade. Tive que ouvir isto. Que tal juntarmos todas estas frases incríveis que eu e você já escutamos e escrever um livro? Só não sei em que entrará categoria ele seria vendido: romance, auto-ajuda ou comédia.

 

Voltando aos príncipes. E aí, quando eu estava me recuperando do tombo – do casamento desastre, fui doar sangue num hospital de Curitiba. Minha tia estava doente e me prontifique a doar plaquetas. Cerca de duas horas deitada numa cama, fazendo a doação. Mas não é que foi lá que encontrei meu Edward Cullen (assistiu à Saga Crepúsculo?). Meu vampiro curitibano, ou melhor, carioca. Tinha que ser carioca. De jaleco branco, me fez sentir borboletas na barriga novamente. Era mais um príncipe encantado na minha vida … O último.

 

Me arrependo de ter tido tantos? Das lágrimas derramadas e dos mergulhos nas latas de leite condensado e barras de chocolate? Não, não me arrependo em nenhum momento. Todos eles me fizeram rir, chorar, me conhecer melhor. Vamos combinar: deve ter sido muito chato para a Branca de Neve e a Cinderela beijarem um príncipe só a vida toda, não?

 

Suzana Camargo, jornalista

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Nunca tive a mínima dúvida sobre o que queria fazer na vida: escrever. Escrevi para rádio, televisão, revista e sites. Sou daquelas que adora ficar ouvindo conversa na mesa ao lado do restaurante ou vendo despedidas em aeroporto. História é para ser contada. E recontada. Às vezes me acho meio louca quando penso num título enquanto estou dirigindo ou então naquela abertura de texto durante a chuveirada. Ao longo da vida descobri minha segunda paixão: viajar! Acho que sou uma típica geminiana: inconstante, curiosa e inquieta. Atualmente me sinto mais como uma malabarista. Mãe, dona de casa, esposa, jornalista freelance e mulher.

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