Trinta e poucos... 

Tic-tac, tic-tac

Parafraseando Rita Lee, mulher é realmente um bicho esquisito. E completamente imprevisível. Lembro dos meus vinte e poucos anos. Eu e minhas muitas amigas, sempre com um copo de cerveja ou gim tônica na mão, colocávamos nosso uniforme da noite. Preto era a cor obrigatória. Na noite congelante de Curitiba, esquecíamos completamente o frio e vestíamos nossas microssaias. Eram épocas de muitas histórias, gargalhadas e vida descompromissada. O trabalho era sinônimo de diversão e pagava as contas extras na casa de pai e mãe.

 

Aos vinte e poucos, comprei meu primeiro carro. No sufoco, pagando parcela por parcela do consórcio suado. O grito de liberdade vinha com um sonho realizado: jogar a bolsa no banco do passageiro e sair dirigindo pela cidade. Naqueles idos dos anos 90, eu costumava dizer que “filhos nem pensar, no máximo um cachorrinho em casa”. Paciência zero com criança.

 

Passou-se uma década e rolou muito beijo na boca, frustrações amorosas, traições profissionais. Como dizem por aí, o que não mata, te faz mais forte. A mulher independente, viajada e sem papas na língua, começou a ficar cansada das noitadas e com vontade de poder dormir abraçadinha assistindo Sex and the City ou Os Normais.

 

E por um acaso do destino – daqueles que só acontecem mesmo com este ser muito complicado que é a mulher (conto esta história em outro texto) – num banco de sangue encontrei “o” cara. Imprevisíveis, mas determinadas, nós mulheres quando queremos algo, vamos à luta. Usando geralmente nossas piores armas: fala doce, olhar fatal e todas as artimanhas possíveis para armar aqueles encontros completamente inesperados (sim, muitos dos homens acreditam que aquela topada casual no bar foi por acaso).

 

“O” cara me tirou de Curitiba e me trouxe para São Paulo. E quando entrei nos meus trinta e poucos, ele fez bater dentro de mim algo surreal. O tal do relógio biológico. Eu, que olhava torto para criança sentada ao meu lado no avião, comecei a ouvir um tic-tac, tic-tac. E aí, ninguém segura aquela vontade adormecida, lá naquele quarto escuro, bem no fundo da mulher, que nem ela sabia que existia. Pelo menos eu, não sabia.

 

Pouco antes de nascer meu primeiro filho, confessei a um casal de amigos que estava apreensiva. Nunca havia trocado uma fralda na vida. Ele, como homem pragmático, fez uma conta rapidamente de cabeça. “Su, você vai trocar umas oito fraldas por dia. Na primeira semana, serão quase 60. Aprende rapidinho”. Ela, com nosso linguajar feminino, cheio de metáforas, me disse. “Quando o bebê nasce, imediatamente a gente incorpora algo chamado mãe”.

 

E não é que ela tinha razão? Foi nos meus trinta e poucos que me descobri uma mãe-leoa. Um amor tão grande que não cabe no peito. E a bolsa do banco de passageiro do carro? Que bolsa nada! Fui obrigada a dar lugar àquela mala cheia de fraldas, mamadeira e creme para assadura. Microssaia?! Nem pensar. Não dá para correr atrás de criança e recolher brinquedo segurando a roupa.

 

Mas quem se importa? O vulcão de sensualidade adormecido quer mais curtir aquela risada deliciosa do bebê desdentado. Vamos concordar: difícil mesmo entender a nós, mulheres!!!

 

Suzana Camargo, jornalista

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Nunca tive a mínima dúvida sobre o que queria fazer na vida: escrever. Escrevi para rádio, televisão, revista e sites. Sou daquelas que adora ficar ouvindo conversa na mesa ao lado do restaurante ou vendo despedidas em aeroporto. História é para ser contada. E recontada. Às vezes me acho meio louca quando penso num título enquanto estou dirigindo ou então naquela abertura de texto durante a chuveirada. Ao longo da vida descobri minha segunda paixão: viajar! Acho que sou uma típica geminiana: inconstante, curiosa e inquieta. Atualmente me sinto mais como uma malabarista. Mãe, dona de casa, esposa, jornalista freelance e mulher.

 

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