Aplausos Entrevista 

Uma inibida corajosa

Aperto a campainha do pequeno prédio no Juvevê com o coração um pouco acelerado. O horário de verão permite que o céu das 18h30 ainda esteja bem claro, para meu alívio: nunca achei educado fazer entrevistas à noite. Respiro e perdôo o nervosismo. Pudera. Estou prestes a conversar com umas das figuras mais notórias do cenário cultural de Curitiba, cuja experiência em teatro ultrapassa meus anos de vida.

Marlene Montenegro foi, por duas vezes, diretora artística do Centro Cultural Teatro Guaira. Antes disso, no mesmo espaço – seu grande amor – dedicou anos ao hoje extinto Curso Permanente de Teatro. No comando do Teatro Bamerindus, participou ativamente da criação do que se tornaria o maior símbolo do natal curitibano, o coral do Palácio Avenida. Aos 80 anos, me recebe em seu apartamento oferecendo-me uma coca-cola gelada.

 

“O teatro é a minha paixão, porque ele ainda me faz sonhar.

Não são 80 anos que fazem uma mulher deixar de sonhar.”

Marlene Montenegro

 

Como aconteceu o início de sua carreira no mundo teatral?

Eu gosto muito de usar uma frase da Clarice Lispector para falar sobre isso: “E de repente se passaram 20 anos”. Só que, no meu caso, foram 40. Eu não era mais mocinha, tinha meus 30 anos, não trabalhava, quando uma prima minha, que já era funcionária do Guaira, me convidou pra ser secretária lá. A princípio eu recusei, disse pra ela que não sabia nem usar aquelas máquinas de datilografar, que não entendia nada de teatro, perguntei o que ia fazer. Mas ela insistiu tanto que resolvi aceitar.

 

E como foi?

Eu virei secretária do Curso Permanente de Teatro, que formou grandes artistas da nossa cidade. No começo precisei aprender tudo, mas eu sou corajosa, não desistia. Virei uma mãezona para todos os alunos, eles me adoravam e eu os adorava. Fiquei lá de 1975 até 1981, e passei por boas histórias com eles. Até que Eloá Teixeira, na época a diretora de arte do teatro, me chamou para ser sua assessora. Aceitei e me tornei responsável por toda a pauta do Guaíra. Continuei na assessoria mesmo com duas mudanças na diretoria, até quem, em 1988, assumi o cargo pela primeira vez. Mas continuei a cuidar das pautas! Não confiava em mais ninguém pra fazer isso (risos).

 

Em tantos anos dedicados ao Teatro Guaíra, nunca se aventurou nos palcos?

Ah, não! Eu sempre digo que, para acontecer alguma coisa no palco, tem que haver alguém na coxia. Eu sou da coxia, sou inibida. Sou da plateia também, a minha crítica é o aplauso.

 

Há alguma história mais marcante nesses bastidores?

Nossa, e quantas! Tenho muitas histórias com os alunos do CPT (Curso Permanente de Teatro). Uma vez, eles inventaram moda e queriam um paraquedas para um experimento de palco. Como ninguém tinha dinheiro pra comprar ou alugar nada, vieram me implorar que eu pedisse emprestado ao aeroclube. E eles ajoelhavam, me beijavam, eu não resistia. Consegui o paraquedas sob juramento de que o devolveria intacto. Dias depois, os alunos sofreram pra me contar que haviam cortado as linhas do paraquedas! Fiquei doida. Como ia devolver? Tomei coragem e fui ao aeroclube, que não me cobrou nada, mas fez questão de me mandar não aparecer mais lá. Deixei os alunos sofrerem um tempinho, dizendo que estava pagando pelo paraquedas do meu bolso (risos). Teatro é isso, é esse improviso, é o que eu amo. Como diz Lope de Veja, “para fazer teatro bastam dois atores, um tablado e uma paixão”.

 

E foi essa paixão que te motivou a assumir o Teatro Bamerindus?

Eu já não estava mais no Guaíra quando fui convidada pra participar da criação do teatrinho (o chama carinhosamente). Não pensei duas vezes, era minha chance de voltar a trabalhar com o que eu amava, ainda mais daquele jeito, vendo e ajudando o espaço a nascer. Inauguramos em 1997, com 200 lugares, e naquela época eu já entendia tudo necessário para fazê-lo funcionar. Assumi o teatro e passei a viajar muito para assistir a espetáculos que poderíamos trazer. Foi nessa época de viagens ao Rio e a São Paulo que me encantei com alguns artistas que me emocionam até hoje, como a Regina Casé, que, pra mim, é uma das melhores atrizes do Brasil. Ela faz o que quer, é magnífica.

 

Existe algum espetáculo que seja preferido em tantos anos no meio teatral?

Muitos. Rei Lear, montagem de Paulo Autran, por exemplo, foi um inesquecível.

 

Como é a sensação de ter feito parte do nascimento do Natal do Palácio Avenida?

Foi uma loucura! (risos). Maria Cristina de Andrade Vieira, que foi quem me chamou para o Teatro do Bamerindus, chegou um dia com a frase: “eu vou empacotar o Palácio Avenida”. Perguntei como, seria preciso muito dinheiro e trabalho para o que ela queria, mas ela era danada também. Me pediu que eu conseguisse um coral de 100 vozes imediatamente, duvidando que eu conseguiria. Mais uma vez, os contatos do Guaíra me ajudaram muito. No mesmo dia, fiz parceria com o Coral dos Curumins, que inauguraram a apresentação. Aquilo é muito lindo, sempre foi. Hoje em dia é cartão postal da cidade, transmite uma emoção sem igual, coisa que só a cultura faz.

 

Para você, qual a importância da cultura na formação social?

Não existe nada que ensine mais que a leitura. Minha família sempre foi de ratos de biblioteca, sempre digo a todos os jovens: leiam! Existem livros bons e livros ruins, como tudo, mas a leitura é sempre uma forma de educação. E a educação é a mola, o motim para todo o resto na vida. Os livros, os filmes, os espetáculos de teatro são formas de educação.

 

Qual livro está na sua cabeceira?

O Jogo de Ripper, da Isabel Allende.

 

O que falta no cenário cultural paranaense atualmente?

Investimento. E reconhecimento. Precisamos reverenciar o artista paranaense. Precisamos valorizar e cuidar da nossa Orquestra Sinfônica, que é parte do currículo da cidade. Fui coordenadora da Orquestra, não sou crítica, mas sei que ela é excelente, já foi a terceira do Brasil. Falta muito investimento, infelizmente.

 

Você disse que sua crítica são os aplausos. Seus aplausos são para o quê?

Para o teatro. O teatro é a minha paixão, porque ele ainda me faz sonhar. Não são 80 anos que fazem uma mulher deixar de sonhar.

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