Festival Era Uma Vez: entrevista com o diretor cênico, Tiago Luz

Confira na íntegra a entrevista com Tiago Luz, roteirista e coordenador teatral do Festival Era uma vez, Eram duas, Eram Três.

1. Quais são as sensações ou sentimentos que você procurou provocar quando escreveu as peças?

A pesquisa que eu desenvolvo com os artistas da Kromossomos Estranhos, envolve a busca de um teatro para crianças que consiga conectar também o adulto ao universo infantil. Não só por via de memórias afetivas, saudosismos ou qualquer coisa do gênero, mas pelo caminho da auto reflexão. O adulto, em seu lugar de adulto, se reconhecendo dentro do universo da criança, como agente ativo, com responsabilidades morais, éticas, afetivas, articulando a partir dessa maravilhosa e idiossincrática convivência com as questões da infância e da juventude. É claro que a gente não descarta a catarse, ela é importante e muito. A identificação, os sentimentos, o prazer em ver uma cena esteticamente bonita, os pêlos do braço arrepiados com uma melodia inesperada, ou, reflexões, questionamentos, análises… Tudo isso tem a mesma importância pra gente. Do ponto de vista pedagógico, nós temos como norte, desde o início da companhia, a criação de espetáculos voltados também para os adultos. Espetáculos que sejam relevantes para familiares/responsáveis, educadores e educadoras. Então que a ideia é sempre provocar, abrir ao máximo os canais de diálogo entre esses dois mundos. Um teatro para crianças onde os adultos se divirtam e possam se conectar, como adultos, ao universo da criança…

2. Qual o maior desafio em escrever/dirigir um Festival em tempos de Covid-19?

Esse ”vinte vinte”, foi um ano difícil para a humanidade. Nós estamos passando por situações atípicas, com efeitos difíceis de analisar a curto e médio prazo. Quem será o nosso público? Cada faixa etária viveu essa pandemia de um modo diferente. Muitas crianças perderam praticamente um ano de convívio com os coleguinhas da escola, de contato efetivo com educadores e educadoras. Mesmo com a união de forças entre familiares e agentes educacionais para tentar cumprir uma agenda escolar em casa, o sistema todo foi alterado de forma repentina, sem que ninguém, escola ou família, tivessem ferramentas concretas para lidar com essa situação. De que modo isso vai reverberar nessas geração? Durante a pandemia meu filho de cinco anos aprendeu a ler, estalar os dedos e, entre outras coisas, cantarolar a trilha inteira do Star Wars por conta do vídeo game. Ele teve uma necessidade orgânica de autonomia, de apropriação do seu espaço, dos mecanismos de funcionamento da casa. Mas… Qual será o prejuízo emocional diante de todo o resto? Do isolamento, da diminuição radical de contato físico e social? Como o fato dos familiares terem de trabalhar em casa, com a presença dos filhos, vai influenciar adultos e crianças no modo como se relacionam? Então, para além de qualquer questão prática ou técnica, onde o teatro possa ter algum tipo de dificuldade relacionada a pandemia, são algumas perguntas como essas que devem provocar a direção do nosso olhar como criadores artísticos: – Quem serão as crianças e adultos que irão ao teatro? Adultos estressados, crianças multitelas, hiperconectadas? Ou nada disso? O que é importante que eles vejam, ouçam, sintam, depois de tudo que a gente viveu nesse último ano? É nesse lugar que o teatro, como um todo, tem o seu maior desafio. O desafio está em ter sensibilidade suficiente para compreender e acolher esse público, possivelmente traumatizado, em seu retorno as plateias.

A exemplo da Cinderela, mesmo que muitas coisas não cheguem a cena de forma explícita, a ideia é que alguns temas sociais sejam levantados, como: a voz feminina, sororidade, papel dos pais e construções masculinas. Outra história que me chamou atenção foi a de João e Maria, que também traz uma abordagem atualizada dos relacionamentos e estruturas familiares. “Neste reconto, a mãe sofre com a separação e afasta as crianças do pai, por uma incapacidade de lidar com os próprios sentimentos, cumprindo assim a alegoria da floresta, onde as feras e os perigos da noite são representados pelos problemas psicológicos que uma separação pode causar nas crianças. Nesse contexto, a mãe encontra a redenção através da experiência que as crianças conquistam em sua jornada. A aventura lhes dá ferramentas para ajudar a mãe a compreender a situação com um olhar mais sensível e racional.”

3. Qual é a urgência de trazer esses assuntos para as crianças atualmente? E como é esse desafio de abordar temas tão atuais e pertinentes para o público infanto juvenil? Você sentiu algum receio no momento de trazer essas ideias não tão “tradicionais” aos contos?

Eu gosto da palavra “reconto”, ela se aproxima muito do “refabular”, um termo que o Leminski usa no seu ensaio sobre o imaginário grego, chamado “Metaformose”. Quando contamos repetidamente uma história, com o passar do tempo ela vai se transformando, seja pela corrupção inevitável da memória, ou como um recurso da auto terapia. E quando a história se transforma, nós nos transformamos com ela. Eu acho essa palavra linda, “Refabular-se” rsrs… É importante que as histórias se modifiquem, se atualizem. A fome do texto de João e Maria não é a mesma fome que conhecemos hoje. O abandono parental na idade média tinha outras conotações. Embora moralmente condenável, essa prática não tinha o mesmo status de crime ou patologia que tem hoje, acredito que nem crime era até a primeira metade do século 19. A criança não era compreendida como é hoje. Se não me engano, no Brasil, até o início do século passado um menor/criança, poderia ser preso como qualquer adulto. Então, é importante trazermos para o foco questões como essas, inclusive abordando temas que ainda são tabus. No primeiro espetáculo da companhia (Cabra Cabriola, 2015) em parceria com a Montenegro Produções, levamos à cena muitas dessas questões. Com os espetáculos que se seguiram também. “Lobisomem” falava sobre uma relação familiar desestruturada, contaminada pelos efeitos colaterais do mau uso da tecnologia. “Cuca” explorou ainda mais esse universo, abordando temas contemporâneos, sociais e antropológicos. A Montenegro Produções abraçou nossa pesquisa, nosso modo de construir os espetáculos. Sempre com um olhar generoso, de vanguarda, de enfrentamento… O teatro para crianças precisa de um tanto de coragem, de uma ingenuidade destemida, para conseguir ir além, transgredir, ser relevante e… Muita, mas muita responsabilidade na sua construção, algo que os artistas da Kromossomos Estranhos trazem em sua formação acadêmica, artística e pessoal. A direção, dramaturgia dos nossos espetáculos tem amparo pedagógico, e artístico, na minha formação em licenciatura, em mais de vinte anos no exercício do teatro, boa parte desse tempo foi dedicado ao teatro para crianças. Mas ela é influenciada principalmente pelo contato direto com uma criança. Meu filho nasceu em meio ao processo da “Cabra Cabriola” e os espetáculos seguintes foram feitos com ele no meu colo. Existe aí uma necessidade individual que reverbera na esfera coletiva. A questão se deslocou de “que tipo de teatro eu quero fazer?” para “que tipo de teatro eu quero que meu filho assista?”. Essa perspectiva mudou completamente o modo como me relaciono com a arte e com o mundo. Junto a isso o privilégio de contar com uma equipe de artistas criadores extremamente talentosos, comprometidos com a pesquisa e a busca por um teatro para crianças que seja sincero, divertido e relevante. Então que esses assuntos, ditos tabus, não só podem, como devem ser abordados em cena, mas com cuidado e muito, muito, carinho e responsabilidade.

4. E para concluir, quem vai ao teatro, mesmo que possivelmente o Covid ainda seja um desestimulador para tal?

Eu acredito que será um retorno gradual. A humanidade viveu, vive, uma experiência única. As grandes telas dentro de suas casa, que antes eram uma escolha, passaram a ser a única opção. As pessoas vão ao teatro, ao cinema, ao circo, a um show musical, por conta de uma necessidade de comunhão. Porque, a partir da situação de pandemia, até mesmo o teatro passou a ser visto em uma tela. Não vou entrar no mérito se ele deixa de ser teatro nessas condições, o fato é que o medo, a insegurança, ainda estarão presentes por um bom tempo em nossas relações. Mas, contrário a isso, acredito que esse desejo de comunhão, de comungar, também vai ser muito forte. O Fellini dizia que “falar sobre sonhos é como falar sobre filmes, porque o cinema se utiliza da linguagem dos sonhos”. E eu acho que é por isso que nós vamos ao cinema, ao teatro… Pra viver um sonho, mas de um modo diferente percebe? Imagine comigo… A sala de teatro escura, de repente uma luz se acende no palco. O espetáculo começa e as pessoas dentro dessa sala, cada um a seu modo, passam a viver o mesmo sonho… Conectadas, reverberando energias, cores, sons, ideias que os artistas traduzem em forma de arte. Então que eu sou um otimista rsrs, acredito no poder da poesia, “porque o poeta não é uma excrescência ornamental da sociedade”. E a arte, embora às vezes não seja elencada como tal, é um ingrediente fundamental na cesta básica da humanidade. A arte é o cimento entre os tijolos de uma sociedade e é também a marreta que destrói essa parede quando ela se julga pronta e acabada. Porque é preciso reconstruir constantemente, ideias, conceitos, comportamentos… E a arte é a única ferramenta capaz de fazer isso com profundidade. Tire a arte de uma sociedade e pode passar a chamá-la de outra coisa.


 

 

Sobre o Diretor: Tiago é licenciado em Teatro, Artes Cênicas, pela Faculdade de Artes do Paraná, e iniciou sua trajetória com a Montenegro Produções Culturais em 2015, no Festival Brinque, Lendas Brasileiras.

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