Festival Era Uma Vez, Eram Duas… Eram Três! João e o Pé de Feijão com plateia aberta ao público

Em uma pequena vila na zona rural brasileira, o menino João do Fubá e sua mãe vivem à espera de um milagre que os salve da fome e da seca. Até que três feijões mágicos fazem brotar novamente a esperança de dias melhores para toda a região.

O árido cotidiano do Brasil sertanejo e a cultura das festas populares de São João são tratados com delicadeza e muita musicalidade na adaptação da Cia do Abração para o clássico infantil de origem inglesa João e o Pé de Feijão, que encerra a terceira edição do festival de teatro infantojuvenil Era Uma Vez, Eram Duas… Eram Três!, realizado pela Montenegro Produções. Inédito, o espetáculo criado especialmente para o festival terá duas apresentações, nos dias 23 e 24 de outubro, às 16 horas, no Teatro Bom Jesus, com plateia aberta ao público, seguindo todos os protocolos de prevenção à Covid-19.

Vivendo tempos difíceis na roça, sem dinheiro para comprar alimentos e com um solo infértil demais para germinar, João do Fubá é enviado por sua mãe ao mercado da cidade para vender o único bem da família: a vaca Branquinha, que deixou de produzir leite. No caminho, ele encontra Ararin, um velho pássaro, que lhe propõe trocar a vaca por três feijões mágicos, oferta que João aceita. Furiosa com o mau negócio, a mãe do menino joga os feijões pela janela, sem imaginar a imensa árvore de tronco espesso e raízes grossas a que eles dariam origem, da noite para o dia.

“Sempre trabalhamos com textos autorais, até a Montenegro nos provocar a produzir releituras de histórias clássicas da literatura infantil para o festival Era Uma Vez…. Topamos, desde que pudéssemos fazer do nosso jeito e vem dando muito certo. A Cia do Abração se coloca em toda obra que faz. Para nós, é fundamental contextualizar a narrativa e inserir nela a cultura brasileira, pois é importante falarmos de nós mesmos”, explica Letícia Guimarães, diretora da montagem e da Cia do Abração.

 

Sendo assim, a adaptação de João e o Pé de Feijão propõe novas reflexões à plateia. Na história original, por exemplo, o menino João escala o pé de feijão para roubar as riquezas do Gigante Malvado, retornando ao castelo para buscar mais sempre que o dinheiro acaba. Já a releitura da Cia do Abração opta por destacar valores como o respeito ao meio ambiente e a valorização de virtudes humanas. Sem saber que galinha do gigante bota ovos de ouro, João do Fubá a salva de maus-tratos; quando descobre o talento excepcional de sua mais nova amiga, não obtém nenhuma vantagem, pois já não há mais alimentos para comprar na vila, nem pagando com ovos de ouro.

A insegurança alimentar, que hoje atinge mais de 19 milhões de brasileiros, já era um problema social quando a história João e o Pé de Feijão foi escrita, no século 19. A adaptação da Cia do Abração também trata do tema, porém de maneira mais delicada e sob um viés otimista, de confiança no futuro. “O artista é filtro de uma realidade que a companhia busca retratar, mas sempre com uma mensagem de esperança. Nosso intuito é que as crianças sejam tocadas e se conscientizem, porém de forma sensível e lúdica, para que cresçam seres humanos melhores”, explica a diretora.

A arte e a cultura como caminho de transformação da realidade é outro tema abordado pela adaptação da Cia do Abração que vai além do texto popularizado por Joseph Jacobs (1854-1916). Em uma de suas visitas ao reino do Gigante Malvado, ao invés de se encantar com o som de uma harpa de ouro e roubá-la para si, João do Fubá fica fascinado com uma viola caipira, que ele empresta para mostrar à mãe e acaba não tendo oportunidade de devolver, pois o pé de feijão é cortado para evitar a fúria do gigante.

O som da viola caipira está presente a todo momento nesta releitura João e o Pé de Feijão. Todo o espetáculo é embalado por versões de canções emblemáticas do cancioneiro popular brasileiro e composições autorais no mesmo estilo, criadas pelos próprios integrantes do grupo. “Temos um elenco muito musical. As canções foram saindo no improviso e muito naturalmente. Bastou eu dizer que elas deviam expressar e enaltecer a cultura dos nossos caipiras”, conta a diretora da Cia do Abração.

A música tocada por João do Fubá em sua nova viola caipira é o elemento que acaba possibilitando a modificação da penosa situação em que vivem ele, sua mãe e toda a comunidade. Emocionada com a sonoridade da viola, a natureza enche as nuvens e transborda uma chuva de recomeço, celebrada por todos com uma mais que esperada festa de São João.

 

Texto: Juliana Girardi | Fotos:  Diego Cagnato

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